Energia solar: do colonialismo à modernidade

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Com investimento chinês, Brasil entra de vez na produção da energia solar. País, porém, importa silício mil vezes mais caro do que exporta.

Por Najar Tubino – Carta Maior

A fonte energética mais óbvia do planeta começa a se desenvolver no Brasil, país tropical, com 2,5 vezes mais irradiação do que qualquer outro de clima frio, como a Alemanha, onde esta forma de energia representa 5,3% da matriz energética.

O assunto aparece remotamente na mídia conservadora e mal informada, depois da visita do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, em maio passado, quando foram anunciados os investimentos da BYD em Campinas. Trata-se de uma das gigantes asiáticas que produz carros elétricos, ônibus, baterias, redes inteligentes e painéis e células solares. Vai montar uma fábrica em Campinas para produzir 400 MW em painéis solares com investimento na ordem de US$150 milhões. E, mais importante, será construído um centro de pesquisas nesta área.

O que o colonialismo tem a ver com isso? Tudo. A matéria prima dos painéis e células solares é o silício altamente purificado, com grau de 99,9999%. A fonte mineral do silício é o quartzo, precisa ser desoxidado em altos fornos para gerar o produto final grau solar e grau eletrônico. O silício é um semicondutor e é a base da era digital, porque está presente em nos chips, microprocessadores e qualquer outro tipo de sistema eletrônico. O Brasil tem jazidas de quartzo em Minas Gerais e Bahia, o estado onde se registra o maior índice de irradiação solar por metro quadrado.

O físico e professor da Unicamp, Francisco das Chagas Marques, do Laboratório de Pesquisas Fotovoltaicas, explica o que acontece: “o Brasil possui tecnologia para a fabricação de células solares, mas importa o silício purificado, encarecendo o custo dos painéis solares. Nós temos as maiores jazidas de quartzo acumuladas, somos também um dos maiores produtores e exportadores de silício metalúrgico, produzido a partir do quartzo, mas que tem um índice de pureza muito baixo. Após a purificação nos Estados Unidos, Europa e China compramos o silício de volta a um preço maior”.
 
Mercado colonial: vende por 0,03 e importa por 30
O maior significa mil vezes mais. Quer dizer, o quartzo sai do país por US$0,03 por quilo, o silício metalúrgico custa US$3/kg e o grau solar US$30/kg. Os dados fazem parte de um estudo de 2012 da Associação Brasileira da Indústria Eletro e Eletrônica (ABINEE), que desde então ressalta a importância do país construir uma cadeia produtiva neste segmento.
“É necessário buscar o desenvolvimento da cadeia produtiva de sistemas fotovoltaicos no Brasil de forma adequada e progressiva. Os investidores globais estão se posicionando, a curva de aprendizado do setor é altamente acelerada e o Brasil corre o risco de perder a oportunidade de se posicionar como um ator dentro de uma indústria altamente estratégica”.

O estuda cita o exemplo da Alemanha que em 2010 tinha 10 mil empresas nesta cadeia produtiva e injetava 10 bilhões de euros na economia e arrecadava 1,5 bilhão em impostos. O setor de energias alternativas, que inclui a eólica, emprega 7,7 milhões de pessoas no mundo, somente na China são 3,9 milhões. A Associação Brasileira de Energia Fotovoltaica (ABSOLAR) calcula que para cada 1MW instalado são gerados 20 empregos. Significa que se o Brasil instalasse mil MW por ano seriam criados 20 mil empregos. É preciso esclarecer o seguinte: um painel solar é composto de células, de um controlador de carga, de uma bateria e de um inversor de carga, produtos com tecnologia avançada.

Muito mais importante ainda: “os inversores de carga, registra o estudo da ABINEE, para aplicação fotovoltaica tem uma grande sinergia com a produção de equipamentos eletrônicos, para aplicações na área de informática, telecomunicações e geração de energia. Hoje as empresa desenvolvem os projetos com tecnologia própria e mão de obra qualificada depois mandam construir na China e importam o produto final”.

Projetos com capacidade maior que Belo Monte

O grupo da ABINEE reúne mais de 140 empresas do setor interessadas na energia solar. A mudança maior não veio com a visita do mandatário chinês. Em outubro do ano passado foi realizado um leilão de energia denominado Reserva, onde pela primeira vez foram inscritos projetos de geração fotovoltaica. A surpresa, inclusive dos burocratas que comandam o setor de energia há décadas no Brasil, foi o número de projetos cadastrados – 382 – com uma capacidade de produzir mais de 12 mil MW de energia elétrica, maior que a potência de Belo Monte.

O problema desta burocracia estatal ainda da era da ditadura é considerar que a única forma de suprir as necessidades do país em termos energéticos é a construção de usinas hidrelétricas ou térmicas, inclusive movidas a carvão mineral, que no caso brasileiro é um retrocesso, em termos de emissões de gás carbônico.

Até bem pouco tempo, as outras formas de captação de energia consideradas renováveis, como eólica e solar, eram consideradas alternativas, mais ou menos como é a agroecologia em relação ao agronegócio. Nunca consideram os aspectos ligados ao desenvolvimento de tecnologia nacional, muito menos a estratégia mundial, para um setor como da implantação de painéis solares que cresceu 400% no mundo, nos últimos 10 anos. E mais: a energia solar é estratégica para a China, que desde 2009, dá isenção de 50% nos impostos para quem geral, seja numa planta industrial, ou quem instala painéis em suas casas e prédios comerciais.

Mesmo os Estados Unidos criaram desde 2008 a “Solar America Initiative” e chegaram em 2014 com 20GW de capacidade instalada. A Alemanha conta com 39% das placas fotovoltaicas do mundo e gastou no ano passado US$17 bilhões em energias limpas, claro que as políticas públicas do país atendem ao objetivo de reduzir 20% das emissões de gás carbônico até 2020 e zerar o uso de energia nuclear. Desde 2009, qualquer nova construção é obrigada a ter equipamentos de coleta de energia de fontes renováveis.

Distribuidoras e geradoras não gostam da ideia

Qual o problema do Brasil, além dos burocratas e políticos neocolonialistas, que consideram o país como um exportador nato de commodities? A decisão de políticas públicas que tornem as energias eólica e solar uma possibilidade real de uso e parte da matriz energética. Na verdade a energia eólica já engoliu a burocracia e avançou, deverá crescer 60% em 2015, e no final do ano o Brasil poderá contar com 10GW de potência instalada.

O problema da solar é ainda maior. Como a tecnologia hoje em dia permite que uma casa com coletores solares produza energia própria e tenha um excedente para venda comercial. Por enquanto o significado financeiro disso é muito pequeno, mas consideremos o fato previsto pela Empresa de Pesquisa Energética que em 2023 pelo menos 124 mil residências e 21 mil estabelecimentos comerciais e industriais terão adotado este tipo de energia.

O que os acionistas e proprietários das geradoras e distribuidoras pensam disso? Eles não gostam da ideia, embora seja estratégico para o país manter fontes distribuídas de energia por todo o território. Além da tecnologia estratégica, da pesquisa, da formação de mão de obra, dos empregos, dos impostos a energia solar é altamente democrática. Agora não dá para cobrar ICMS, IPI, PIS e CONFINS num segmento, que segundo o diretor de energias renováveis de Itaipu, Cícero Bley Júnior, “a energia solar será a maior fonte de energia do planeta nos próximos 50 anos”.

Energia solar no Minha Casa Minha Vida
A Itaipu Binacional deverá ter em dois anos uma planta para produzir 636 MW de painéis solares. O Projeto denominado “Green Silicon” vai transformar 18 mil toneladas de quartzo em silício grau metalúrgico e solar, passando pelo processamento de lingotes, wafers, células e os painéis. É um complexo industrial, que envolve uma rede de fornecedores de vidros, cabos, plásticos, painéis, inversores e só se concretizará porque exige o fornecimento de energia para os altos fornos – 74 MW, fornecida por Itaipu. Também é necessário ressaltar que dois outros grupos brasileiros, a Tecnometal e o Rima, trabalham na produção de painéis e no caso deste último, produz silício grau metalúrgico. Os dois grupos mantêm projetos de pesquisa com a Unicamp, que já produz silício purificado em laboratório. A PUC-RS também produz células e painéis solares de forma experimental.

O fato mais importante na questão da energia solar, em termos de divulgação pública, está no programa Minha Casa Minha Vida, onde mais de 44 mil casas e apartamentos foram equipados com aquecedores solares para o chuveiro, uma medida que deveria ser corriqueira e obrigatória para novas construções no Brasil.

Além disso, por intermédio do projeto de Geração e Renda e Energia Renovável, dois condomínios de Juazeiro (BA), com mil residências estão usufruindo dos coletores solares de duas maneiras: pela energia usada nas áreas coletivas dos prédios e também pelo recebimento de um bônus de R$110 que cada família recebe, sobre o dinheiro arrecadado pela venda da energia excedente à COELBA, empresa de energia elétrica, um custo de R$6,2 milhões cobertos pelo Fundo Socioambiental da Caixa Federal – criado em 2010, pode investir até 2% do lucro do banco em projetos socioambientais.

Em 2015 a energia solar estará presente em dois leilões do governo federal – o primeiro no dia 14 de agosto e o outro em novembro.

Notícia publicada originalmente no site Carta Maior.