Crise hídrica: a renovabilidade da matriz hidrelétrica em risco?

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Crise hídrica: a renovabilidade da matriz hidrelétrica em risco?

Joilson José Costa*

Desde que a discussão acerca da situação hidrológica desfavorável começou a tomar com mais frequência os noticiários a partir do ano passado uma pergunta vem me incomodando: estaria em risco não apenas o abastecimento imediato de água para consumo e geração de energia elétrica, mas o próprio conceito de renovabilidade de nossa matriz elétrica.

Seria tal pergunta puro “devaneio” precipitado e exagerado de um “não especialista” ou o cenário que vivemos poderia de fato respaldar, pelo menos, o direito a tal dúvida?

Sabe-se que o conceito de “renovável” é conferido às fontes provenientes de recursos que são naturalmente “reabastecidos” e que o mesmo é dependente de uma escala temporal e dos padrões de utilização dos recursos. Partamos então desta compreensão.

Pelo menos até recentemente fomos educados na compreensão de que a água seria um recurso infinito, de tão abundante que era até bem pouco tempo. Tal compreensão em si, aliada a uma esquisita cultura de desperdício que teima em reinar em nosso país, formaram (ou talvez ainda formem) uma combinação perfeita para um padrão de consumo da água extremamente perdulário.

Se de fato tal recurso fosse infinito talvez não houvesse problemas no crescimento constante na curva do consumo. O problema é que a realidade mostra que não é. Portanto, e levando em consideração que alguns reservatórios servem não apenas para gerar energia elétrica, mas também para abastecimento de água para a população, uma primeira problematização seria: faz sentido continuar considerando as águas das hidrelétricas como recurso renovável em um contexto que se necessita cada vez mais de água para o consumo humano e outros usos[1]?

 “Mas a água dos reservatórios é naturalmente reposta pelo ciclo hidrológico” diria a imensa maioria. O problema é que uma afirmação deste tipo, na qual eu também aprendi a acreditar ainda no ensino fundamental, está em flagrante conflito com a realidade atual. Aparentemente há algo de errado com a atual “escala temporal” de reposição da água em alguns lugares, bem como com a capacidade de armazenamento do que ainda chega aos reservatórios[2]. Este parece ser o grande problema.

Acredito que outro problema seja não relacionar esta mudança do ciclo hidrológico às mudanças que o clima vem sofrendo e para as quais vários estudiosos no mundo todo vêm alertando há anos. Chega a ser irônico que a matriz mais prejudicada atualmente no Brasil (hidrelétrica) seja justamente uma das que menos contribui para a emissão de gases de efeito estufa. E chega a ser insano que o governo brasileiro esteja remediando a situação, pelo menos por enquanto, aumentando o uso justamente da que mais polui (termelétrica), contribuindo assim para agravar ainda mais as mudanças climáticas, que continuarão alterando ainda mais o ciclo hidrológico!

Quando será que perceberemos (e aceitaremos) que a água está cada vez menos sendo “naturalmente reabastecida” nos reservatórios? Como continuar considerando uma fonte “renovável” sem essa característica? Mesmo que o problema não atinja regiões que até o momento continuam com seus reservatórios em níveis razoáveis (Sul e Norte), a dúvida permaneceria uma vez que o conceito de renovabilidade nada tem a ver com localização geográfica, mas com o recurso em si.

Já está mais do que na hora do governo brasileiro deixar de ser acomodado com a conveniência de aproveitar o enorme potencial hidráulico brasileiro, que no atual contexto de mudanças climáticas estudos sérios deveriam apontar tendência de diminuição, e construir um verdadeiro e sério plano de investimento em outras formas de gerar energia elétrica, como as que utilizam o vento, o sol e até as marés e o oceano, este último um pouco mais “difícil” de “secar”.

Em termos de potenciais estes três recursos, no Brasil, ultrapassam em muito nossos rios. Logo, este não é um problema. Apesar de não possuir especialidade acadêmica na área, acredito que minha graduação seja suficiente para me fazer acreditar piamente que conhecimento técnico também não seja problema. Conhecendo um pouco da execução orçamentária da União sei que recursos financeiros também não são (há muito tempo que o problema do Brasil deve ter deixado de ser falta de dinheiro).

Por que então continuar “confiando em São Pedro” ou na “nacionalidade” brasileira de Deus e acreditar que em breve tudo voltará a ser como sempre foi? O governo continua negando a necessidade de um racionamento de energia elétrica, mas parece que já vem racionando há muito tempo sua inteligência e sua vontade política de colocar a matriz energética brasileira em outros patamares.

* Engenheiro Eletricista.

[1] Conferir a interessante matéria “Água: disputa entre setor elétrico e outros usos”. Disponível em: http://www.canalenergia.com.br/zpublisher/Materias/Retrospectiva.asp?id=102087&a=2014. O mesmo site estima ainda que a redução de armazenamento apenas nos reservatórios da região SE/CO foi de cerca de 60% entre janeiro de 2014 e janeiro de 2015.

[2] Um texto bastante elucidativo a respeito: http://ilumina.org.br/imagens-explicadas/